Hipóteses de um Multiverso
“Há muitas hipóteses que poderiam conduzir a universos múltiplos. Andrei Linde, Alex Vilenkin e outros realizaram simulações em computadores descrevendo a fase inflacionária «eterna», em que há muitos universos a emergir de big bangs separados em regiões disjuntas do espaço-tempo. Alan Guth e Lee Smolin sugeriram, a partir de diferentes pontos de vista, que seria possível que um novo universo surgisse no interior de um buraco negro, expandindo-se para um novo domínio de espaço-tempo que nos fosse inacessível. Lisa Randall e Raman Sundrum sugerem que poderiam existir outros universos, separados de nós, numa dimensão espacial extra. Estes universos disjuntos podem interagir graviticamente ou podem não ter qualquer efeito uns sobre os outros. Na analogia já muito gasta em que a superfície de um balão representa um universo bidimensional incrustado no nosso espaço tridimensional, estes outros universos seriam representados pelas superfícies de outros balões: quaisquer bicharocos confinados a um desses balões e sem qualquer concepção de uma terceira dimensão desconheceriam completamente os seus pares que andassem por outro balão. Os outros universos seriam domínios separados do espaço e do tempo. Não faria sequer sentido afirmar que tinham surgido antes, depois ou ao mesmo tempo que nós, uma vez que tais conceitos só podem ser usados no interior de uma única medida de tempo, um único tiquetaque para todos os universos.
Guth e Edward Harrison supuseram mesmo que fosse possível criar universos em laboratório, fazendo implodir um pedaço de matéria de forma a dar origem a um pequeno buraco negro. Será o nosso universo no seu conjunto o resultado de uma experiência desse tipo levada a cabo noutro universo? Smolin imagina que o universo filho poderia ser governando por leis que trouxessem a marca das leis dominantes no universo pai. Se assim for, os argumentos teológicos de desígnio poderiam ser ressuscitadas sob uma nova aparência, confundindo ainda mais as fronteiras entre fenómenos naturais e sobrenaturais.
Os universos paralelos também têm sido invocados como solução de alguns dos paradoxos da mecânica quântica, na teoria dos «muitos mundos», defendida pela primeira vez por Hugh Everitt e John Wheeler nos anos 50. Esta concepção foi antecipada por Olaf Stapledon numa das criações mais sofisticadas do seu Star Maker: «sempre que uma criatura de debatia entre diferentes cursos de acção possíveis, escolhia-os a todos, criando assim […] distintas histórias do cosmos. Já que cada sequência evolutiva do cosmos havia muitas criaturas e cada uma delas de debatia constantemente com diferentes cursos de acção possíveis, e os resultados da combinação de todos esses cursos possíveis eram inúmeros, uma infinidade de diferentes universos exfoliava-se de cada momento de uma sequência temporal.»
Nenhuma destas possibilidades foi simplesmente inventada a partir do ar: cada uma delas tem por trás uma motivação teórica, apesar de especulativa. No entanto, uma delas, no máximo, pode ser correcta. Possivelmente nenhuma o será: há teorias alternativas que fariam prever a existência de um único universo.
(…)
Talvez no século XXI os físicos venham a formular a teoria que possa ser extrapolada até ao tempo de Planck e conquiste a nossa confiança por explicar fenómenos até agora inexplicados, apesar de acessíveis à experiência. Se uma teoria desse tipo previsse muitos big bangs, teríamos tanta razão para acreditar em universos separados como temos actualmente para acreditar em universos separados como temos actualmente para acreditar em afirmações sobre buracos negros ou sobre a formulação do hélio durante os primeiros minutos depois do big bang. Um dia poderemos por isso vir a ter fundamento para acreditar na existência ou inexistência de outros universos.
(…)
Bastava que houvesse algo de coerente na actual fórmula para que qualquer big bang desencadeasse um universo que fosse apenas uma repetição do nosso. Há no entanto uma possibilidade muito mais interessante (que é sem dúvida sustentável no nosso actual estado de ignorância das leis subjacentes): que as leis subjacentes ao Multiverso total podem admitir a variedade entre os universos. Aquilo a que chamamos leis da natureza governa todo o domínio que podemos observar, mas, nesta perspectiva mais alargada, pode não passar de um conjunto de regulamentos locais, coerentes com alguma teoria mais abrangente que governe o conjunto, que não é unicamente fixado por essa teoria.”
Fonte: O nosso Habitat Cósmico de Martin Rees

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